{"id":4070,"date":"2024-08-09T18:26:23","date_gmt":"2024-08-09T18:26:23","guid":{"rendered":"https:\/\/acervocarlitocarvalhosa.com.br\/?post_type=texto&#038;p=4070"},"modified":"2024-08-09T18:28:09","modified_gmt":"2024-08-09T18:28:09","slug":"entre-oxala-e-exu","status":"publish","type":"texto","link":"https:\/\/acervocarlitocarvalhosa.com.br\/en\/texto\/entre-oxala-e-exu\/","title":{"rendered":"Entre oxal\u00e1 e exu"},"content":{"rendered":"<body>\n<p class=\"\">Texto escrito sobre a exposi\u00e7\u00e3o Apagador realizada no Solar do Unh\u00e3o, Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM BA), em 2011.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Oxal\u00e1 \u00e9 o pai dos orix\u00e1s, respons\u00e1vel por modelar os homens com a massa de inhame pilado. Divindade da paz, que se veste de branco e tem como dia a sexta-feira, Oxal\u00e1 \u00e9 adorado atrav\u00e9s de diversos rituais e obriga\u00e7\u00f5es. Um destes rituais acontece durante a festa de Oxal\u00e1 em um momento onde todos os orix\u00e1s e pessoas iniciadas passeiam pelo barrac\u00e3o do terreiro sob um grande manto branco, o \u201cAl\u00e1 de Oxal\u00e1\u201d, louvando o orix\u00e1 e recebendo seu ax\u00e9 sob o toque lento dos atabaques. Um sentimento de paz e serenidade toma conta das pessoas que ficam sob o \u201cAl\u00e1 de Oxal\u00e1\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Foi este mesmo sentimento que tive ao adentrar a instala\u00e7\u00e3o \u201cApagador\u201d no Museu de Arte Moderna da Bahia, edifica\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVI, por onde passaram in\u00fameros escravos vindos da \u00c1frica. Todas as salas da Capela do MAM estavam ocupadas com enormes volumes brancos de tecido, que iam do teto ao ch\u00e3o, pr\u00f3ximos \u00e0s paredes. Para percorrer o trabalho era necess\u00e1rio caminhar pelos estreitos corredores, se ro\u00e7ando entre as cortinas e a parede, e depois entrar na obra, passando por baixo dos panos e, dessa forma, se posicionando no centro de grandes espa\u00e7os di\u00e1fanos, cubos brancos, formados pelos tecidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">No interior da instala\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente a arquitetura da Capela se apagava, mas tamb\u00e9m, os sentimentos ruins e preocupa\u00e7\u00f5es, levando o espectador a um est\u00e1gio de contempla\u00e7\u00e3o e de paz muito similar ao provocado pelo ritual de Oxal\u00e1. Esta sensa\u00e7\u00e3o era potencializada por estarmos em uma igreja, que em Salvador tamb\u00e9m \u00e9 local de adora\u00e7\u00e3o aos Orix\u00e1s, devido ao sincretismo baiano. Epabab\u00e1!! Ex\u00ea\u00ea!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Exu \u00e9 o orix\u00e1 mensageiro, que abre os caminhos. Apesar de ser o mais jovem entre as divindades do Candombl\u00e9, conquistou o direito de ser o primeiro a comer e deve ser agradado antes de todos. Ex\u00fa mora nas encruzilhadas, come galo, dend\u00ea, toma cacha\u00e7a, gosta de dinheiro, de festas e uma de suas \u00e1rvores sagradas \u00e9 a Aroeira. A exposi\u00e7\u00e3o \u201cRoteiro para Visita\u00e7\u00e3o\u201d, contava com tr\u00eas grandes trabalhos distribu\u00eddos pelos espa\u00e7os do primeiro andar do Pal\u00e1cio da Aclama\u00e7\u00e3o. O local que j\u00e1 foi morada de governadores fica localizado em uma encruzilhada no centro de Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O primeiro trabalho era justamente uma enorme Aroeira, suspensa a 2 metros do ch\u00e3o no meio do imponente Hall de entrada do Pal\u00e1cio. Juntamente com esta magn\u00edfica \u00e1rvore, dois postes de luz suspensos, de 9 metros cada, transformavam o conjunto numa esp\u00e9cie de tridente, ferramenta que pertence a Ex\u00fa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O impacto visual e a densidade po\u00e9tica desta pe\u00e7a ocuparam o Pal\u00e1cio da Aclama\u00e7\u00e3o por longos sete meses, n\u00famero de Ex\u00fa. Ap\u00f3s este per\u00edodo, a \u00e1rvore foi replantada no jardim da parte exterior do Pal\u00e1cio, onde se encontra at\u00e9 hoje. Uma \u00e1rvore, que normalmente nasce, cresce e morre fincada a terra por ra\u00edzes e da pr\u00f3pria terra se alimenta, colocada suspensa em um local nobre, quase celestial. Isto \u00e9 obra de Ex\u00fa, o mensageiro que atua entre o C\u00e9u e a Terra!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O segundo trabalho foi feito na Sala de Banquetes, ocupada por tr\u00eas longas mesas de madeira de lei, adornada por lustres de cristais e decorada por afrescos. Postes que j\u00e1 foram aroeiras e depois serviram para iluminar os caminhos, como faz Exu, se transformaram em uma esp\u00e9cie de cruz ca\u00edda, que atravessava com viol\u00eancia po\u00e9tica de um lado a outro a arquitetura do edif\u00edcio, transpassando janelas e portas, contrastando com a nobreza dos m\u00f3veis e objetos decorativos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">O \u00faltimo trabalho era na varanda e no Sal\u00e3o Nobre do Pal\u00e1cio, que funcionou no passado como local de festas, bailes, vel\u00f3rios de autoridades, entre outras atividades regidas por Exu. Do ch\u00e3o ao teto centenas de barrotes de madeira formavam uma floresta seca, sem folhas, em rela\u00e7\u00e3o com o entorno do pr\u00e9dio e seu jardim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">No meio dessa sala, um enorme e imponente lustre de cristal resiste imponentemente aos \u201cespetos\u201d fincados na opul\u00eancia hist\u00f3rica e visual daquele espa\u00e7o. Como nos bonecos de vodu, espetados, exorcizando os pr\u00f3prios resqu\u00edcios elitistas da cria\u00e7\u00e3o do artista, colocando-o em contato com o essencial da arte, abrindo seus caminhos para o mundo. Laroy\u00ea! Mojub\u00e1!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Os Orix\u00e1s regem tudo. Oxal\u00e1, assim como Exu, s\u00e3o os \u00fanicos orix\u00e1s que todas as pessoas possuem. Mesmo quem n\u00e3o tem a percep\u00e7\u00e3o desse fato, tem os Orix\u00e1s no caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Salvador, Fevereiro de 2011.<\/p>\n\n\n<p>[\/trp_language]<\/p>\n\n\n\n\n\n\n<p class=\"\"><br>Text written about the \u201cApagador\u201d exhibition held at Solar do Unh\u00e3o, Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM BA), in 2011<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Oxal\u00e1 is the father of the Orix\u00e1s, responsible for molding men out of manioc dough. Divinity of peace always dressed in white, his day is Friday. Oxal\u00e1 is worshipped through various rituals and obligations. One of these rites takes place during the Oxal\u00e1 Festival, when the Orix\u00e1s and the initiates parade around the terreiro, place of worship in Candomb\u00e9 tradition, under a large white mantle, the Al\u00e1 de Oxal\u00e1, giving praise and receiving the Orix\u00e1\u2019s ax\u00e9 (vital force) to the slow beat of the percussion. Those huddled beneath the Al\u00e1 de Oxal\u00e1 are taken over by a sensation of peace and serenity.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">That was exactly the feeling I got upon entering the installation Apagador at the Museum of Modern Art in Bahia, which occupies a 16th-century building where countless slaves were trafficked after being shipped over from Africa. Each of the rooms in the Museum\u2019s Chapel was filled with enormous white fabric volumes draped from the ceiling to the floor, only inches away from the walls. To get around the work, you had to walk these narrow corridors and slip in under the sheets, immersing yourself within the large, diaphanous spaces created by these white cubes of fabric.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Inside the installation it is not only the architecture of the Chapel that is erased, but also the viewer\u2019s<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">ill-feelings and worries, resulting in a stage of contemplation and peace similar to that evoked in the ritual of Oxal\u00e1. This sensation is heightened by the fact that the venue is a church, which in Salvador\u2014thanks to Bahian syncretism\u2014is also a place for the worship of the Orix\u00e1s. Epabab\u00e1!! Ex\u00ea\u00ea!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Exu is the messenger Orix\u00e1, an opener of paths. Though the youngest of the Orix\u00e1s, he has earned the right to eat first and be pleased before all others. Exu lives at crossroads, eats chicken and palm oil, drinks cacha\u00e7a, and has a special fondness for money and parties. His sacred trees include the Aroeira, (pepper tree). The exhibition Roadmap for Visitation features three large works distributed across the first floor of Aclama\u00e7\u00e3o Palace. The place, formerly the Governor\u2019s residence, sits at a crossroads in downtown Salvador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">The first work was a huge Aroeira, suspended two meters off the floor in the middle of the imposing Entrance Hall. Alongside this magnificent tree was a pair of ten-meter-long posts, also suspended, transforming the set into a sort of trident, Exu\u2019s tool.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">The visual impact and poetic density of the piece inhabited Aclama\u00e7\u00e3o Palace for seven long months; seven is also Exu\u2019s number. At the end of the exhibition, the tree was replanted in a garden in the Palace grounds, where it still stands today. A tree, which would normally seed, grow and die in the earth, and feed from roots embedded in the earth, is here hung above the ground in a noble, almost celestial hall. This must be a work of Exu, the messenger who acts between Heaven and Earth!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">The second piece was done in the Banquet Hall, filled by three long hardwood tables, adorned with crystal chandeliers and decorated with<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">frescoes. Lampposts, which were once trees and later illuminated paths, form a sort of fallen cross that cuts violently through the architecture, breaching walls and windows, contrasting starkly with the nobility of the furnishings and d\u00e9cor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">The last of the three works was on the veranda and the Ceremonial Hall, once a venue for official balls, soir\u00e9es and funerals, among other activities governed by Exu. Hundreds of ceiling-high beams formed a dry, leafless forest dialoguing directly with the building\u2019s grounds and gardens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">In the middle of this hall, an enormous and imposing crystal chandelier holds out against the \u201clances\u201d driven into the historical and visual opulence of the space. Jabbed like a voodoo doll, exorcizing the ghosts of the artist\u2019s own elitist up-bringing, putting him in touch with that which is essential in art, opening paths to the world. Laroy\u00ea! Mojub\u00e1!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">The Orix\u00e1s govern all. Oxal\u00e1 and Exu are the only pair in the pantheon that everybody has. Even if we don\u2019t realize it, there are always Orix\u00e1s along the way.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"\">Salvador, February 2011<\/p>\n\n\n<p>\n<\/p><\/body>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto escrito sobre a exposi\u00e7\u00e3o Apagador realizada no Solar do Unh\u00e3o, Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM BA), em 2011.\u00a0 Oxal\u00e1 \u00e9 o pai dos orix\u00e1s, respons\u00e1vel por modelar os homens com a massa de inhame pilado. 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