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A Metade do Dobro

Instituto Tomie Ohtake

A Metade do Dobro é uma exposição que se propõe a explorar as dobras, reflexões e impermanências na obra de Carlito Carvalhosa (São Paulo, 1961-2021). A trajetória de Carvalhosa envolveu predominantemente as linguagens da instalação, pintura e escultura: no início dos anos 1980, ele integrou o atelier Casa 7, ao lado de Fabio Miguez , Nuno Ramos, Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade, em que realizou pinturas de grande escala e intensa exploração da gestualidade pictórica. A partir de 1986, Carvalhosa passou a explorar a encáustica como matéria em suas obras. Na década de 1990, desenvolveu trabalhos no campo escultórico, usando materiais como gesso, cerâmica e cera, e multiplicou o repertório material de suas pinturas, incorporando ceras, resinas e encáusticas. Uma década depois, foram os espelhos e placas de alumínio percutido que passaram a receber suas pinturas, enquanto ele começava a desenvolver também instalações, marcadas pelo uso de materiais como tecidos, lâmpadas, postes de madeira e som, em obras que tensionam as relações entre espaço e tempo.

Reunimos aqui um amplo conjunto de seus trabalhos, atravessando suas quatro décadas de produção, na primeira retrospectiva de fôlego dedicada a obra de Carlito Carvalhosa. As peças são dispostas de maneira a tornar perceptíveis diferentes momentos e pesquisas do artista e, ao mesmo tempo, criar justaposições e passagens fluídas entre esses estágios.

Carvalhosa fez da manipulação de matérias translúcidas e reflexivas, luminosas e sonoras a tessitura de sua poética. Relações de oposição e complementaridade entre o óptico e o háptico estão no centro da poética de Carvalhosa e orientam a maneira pela qual o espaço expositivo está organizado. O óptico, relacionado ao olhar e à luz, devolve ao espectador uma imagem fragmentada e multiplicada. A reflexividade de alguns materiais elegidos pelo artista interrompe a percepção estática e nos põe em um jogo de distâncias, no qual o que vemos está sempre à beira de se dissolver. Por outro lado, o háptico – o tato e o contato com a matéria – é ativado pela presença de superfícies densas e maleáveis. Essas superfícies guardam as marcas do gesto e do corpo do artista, evocando um encontro íntimo entre a mão e a matéria. Juntos, esses aspectos do trabalho criam uma tensão entre o que se vê e o que se toca, entre a luz que revela e a matéria que oculta.

Ao visitante que percorre encontros como o de esculturas disformes e maleáveis, feitas de cera e resina, com peças mais rígidas e perenes de gesso, abre-se aqui uma oportunidade de vaguear conectando o olhar e o corpo à espessura da matéria – ora aproximando-se de superfícies refletoras que trazem a própria imagem para dentro da obra, ora observando volumes em que luz e sombra se entrelaçam.

Curadores

Ana Roman

Lúcia K. Stumpf

Luis Pérez-Oramas

Paulo Miyada

A natureza das coisas

SESC Pompeia

Carlito Carvalhosa, Sempre Presente.

A exposição A Natureza das Coisas – Carlito Carvalhosa apresenta a público, pela primeira vez, um conjunto de instalações do artista, falecido em 2021, reunidas em um só lugar. As obras foram montadas conforme os projetos originais, propondo diálogos com a arquitetura do SESC Pompéia, projetado por Lina Bo Bardi. Um encontro almejado por Carvalhosa que, assim como Bo Bardi, buscava transformar “espaços em lugares”.

Carlito Carvalhosa era fascinado por formas em estado de devir, por matérias que não aceitam conclusão definitiva, instâncias intermediárias, incipientes, de modo que a oposição entre origem e finalização, nascimento e decadência, é neutralizada, desmoronando toda hierarquia possível entre elas. Suas obras tridimensionais e de instalação tendem, em sua maioria, a se manifestar como ‘obras moles’ ou ‘penetráveis’ de dimensões monumentais, que além do grande impacto visual e de uma inerente ativação mental, possibilitam uma fruição corpórea performativa. São obras que convidam o público a se tornar sujeito do ato criativo, por meio de uma experiência que relaciona os materiais, o espaço e o tempo, simultaneamente.

Postes que flutuam, tecidos que apagam o lugar, paisagens deslocadas, luzes que se materializam. Essas instalações foram concebidas como trabalhos experimentais in situ, efêmeros. Mas não é possível deixar de pensar nelas desencarnadas do que poderiam ter sido para se tornarem, elas mesmas, recipientes do espaço que as contém. Tal é o efeito surpreendente das instalações de Carvalhosa: que elas não acomodam o espaço tanto quanto o ‘inventam’. É a tensão contra o espaço onde estão colocadas que as caracteriza, ou seja, é no impulso de se tornarem continentes desse espaço que reside seu prodigioso efeito fenomenológico de invenção espacial.

A exposição A Natureza das Coisas – Carlito Carvalhosa celebra o gesto do artista e compartilha com o público momentos de seu processo de criação. O intangível se consubstancia e as coisas mudam de lugar e de função no espaço-tempo de Carlito Carvalhosa, sempre presente.

Carlito Carvalhosa – A Natureza das Coisas

SESC Pompéia, outubro 2024 – fevereiro 2025

Curadoria Daniel Rangel e Luis Péres-Oramas

Curadoria Adjunta Lúcia K. Stumpf

Linhas do espaço-tempo

Publicado no catálogo da exposição “Linhas do Espaço Tempo” no Instituto Ling, Porto Alegre, RS, Brasil em 2022.

“Linhas do Espaço Tempo” reúne fragmentos cronológicos da trajetória artística de Carlito Carvalhosa. Pinturas, esculturas e instalações que remontam a mais de trinta e cinco anos de produção marcados por elaboradas conexões plásticas, históricas, mentais e sensitivas. A mostra é a primeira no Brasil desde que o artista nos deixou em maio de 2012, motivo central do enfoque retrospectivo e prospectivo. Estruturada por obras-símbolos de diferentes fases, a exposição abarca um recorte compacto, que demonstra a coerência da pesquisa do artista. Registros do seu processo de criação, de reflexões e de memórias marcantes de sua trajetória, além de uma inédita instalação site-specific com postes de iluminação de madeira, desenhada em um de seus caderninhos para um espaço imaginado com características arquitetônicas similares às da galeria do Instituto Ling. Passado pensado para o futuro, realizado no presente.

Pensar, refletir e observar por meio de traços, rabiscos, desenhos, anotações, escritos e achados – em sua maioria guardados em cadernos de bolso – era uma prática comum no dia a dia de Carlito. Um processo típico de um pesquisador, mas que, no caso dele, estava conectado a uma personalidade efusivamente curiosa e naturalmente disciplinada. Era um sedento pelo conhecimento; aprendia e ensinava com a mesma generosidade, recorrendo à sensibilidade e à formação privilegiadas para estabelecer profundos intercâmbios com entornos díspares – uma prática que foi marcada por conscientes (des)conexões com a historicidade da arte, sobretudo relacionada a uma constante pesquisa de materiais e suportes de expressão. Como afirmou Paulo Herkenhoff, “se a memória de Carvalhosa se constrói com seu aparato sensorial, o desdobramento de sua produção tem um olho na história da arte”. 1

No entanto, Carlito não seguia um caminho reto e linear; preferia o trânsito circular entre espaços e tempos, suportes e materiais, o branco e as cores, o erudito e o popular, ciências e religiões. As obras dele são “sólidas mas vazias, opacas mas translúcidas, abstratas mas com fisionomias animais que se insinuam, o jogo entre opostos não para”, 2 conforme observou Alberto Tassinari. Ele aproximava diferenças sem a necessidade de provocar uma junção entre as partes; mantinha-se em um espaço-entre, uma espécie de parênteses vazio, que Mammi situou “num território indefinido entre o nada e a anedota, a singularidade sem importância e a generalidade oca”. 3 Atitude artística que me remete ao “retarde” proposto por Marcel Duchamp, conceito que Octavio Paz atribuiu ao fato de o francês ter se tornado “um pintor de ideias”, 4 que provocava uma reflexão extra visual nos espectadores. Assim como o artista francês, Carlito buscava uma ativação do campo mental e sensitivo com suas obras, muitas vezes a partir da apropriação e do deslocamento de elementos do mundo para o espaço expositivo e da subtração da funcionalidade desses objetos. Outra similaridade com Duchamp pode ser percebida no uso ativo das palavras, seja em títulos de obras ou de exposições. “Linhas do Espaço Tempo” surgiu respeitando esse processo poético, assimilando opções encontradas no percurso curatorial por meio de um olhar histórico, mental e, sobretudo, sensitivo. 

O trabalho mais antigo aqui apresentado, uma pintura de 1985, integrou a Grande Tela na 18a Bienal Internacional de São Paulo, com curadoria de Sheila Leirner. Nesse momento, os artistas reunidos no ateliê coletivo Casa 7 – que, além de Carlito Carvalhosa, contava com Fábio Miguez, Nuno Ramos, Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade – estavam revisitando e revendo a utilização da pintura como meio. Para Mammi, “a Casa 7 representou o ingresso no Brasil nas poéticas neo-expressionistas, que já há alguns anos dominavam na Europa”.5

Na série Dedinhos, iniciada durante uma residência artística realizada em Köhl, na Alemanha, entre 1991 e 1992, Carlito retomou o uso da cera como matéria pictórica – algo que já havia experimentado nos anos de 1986 a 1988. É a partir da coloração do próprio material, explorado nas oscilações de transparência e opacidade inerentes à técnica da encáustica, que as composições eram criadas, resultando em “uma aniquilação cromática que gera um espectro cambiante de variações luminosas”.6 A tridimensionalidade, discreta em obras anteriores, se tornou o principal tema desses trabalhos em cera.

Em 1995, Carlito criou os primeiros trabalhos escultóricos fora do suporte vertical, realizados a partir de experimentações da técnica de cera perdida. No ano seguinte, quando fez sua primeira instalação pública, no âmbito do projeto Arte Cidade, iniciou a produção de esculturas em porcelana. De acordo com Rodrigo Naves, essas obras possuem “um aspecto orgânico indiscutível”,7 apesar da rigidez do material, e se encontram no entre-dialético característico do trabalho do artista, uma vez que “o que se mostrava vivo adquire uma aparência de um produto industrializado”8 a partir do reflexo causado pela incidência da luz. Opostos atraíam Carlito, que explorava com frequência relações entre transparência, opacidade e reflexividade, criando uma espécie de “trialética” que viria a caracterizar sua produção. Em 1999, o artista realizou as primeiras exposições site-specific, criando obras em gesso, um produto opaco por natureza, em grandes formatos. Muitas vezes, a massa escultórica era perfurada, apresentando algo sólido e pesado como simultaneamente transparente e transponível – uma experiência que desenvolveu por quase uma década, avançando gradativamente em escala e complexidade de execução.

Em uma mostra site-specific de 2008, Carlito utilizou espelhos, elemento que já vinha utilizando como suporte para pintura desde a série Espelhos Graxos, iniciada em 2003 . Para Paulo Venâncio Filho, “é razoável que o espelho venha após o gesso, do qual é o oposto”.9 A reflexividade se tornou um atributo onipresente em suas obras bidimensionais, dos espelhos às chapas de alumínio e aço carbono. Para Venâncio, nessas obras o artista “buscou acentuar […] o muito que se oferece ao olhar e o pouco que exige do ver”.10 Distintas experiências, nas quais utilizou tinta acrílica, spray e graxa para cobrir e revelar estruturas e escapes das “pinturas”. Mammi preferiu utilizar o termo “quadros”, ressaltando que “às vezes é difícil chamá-los de pinturas”, pois, segundo ele, “o que é questionado aí, é a própria existência do suporte como base neutra”.11 

Nesses trabalhos, percebemos uma intenção de ocultar reflexos existentes com pigmentos experimentais ou tradicionais, que funcionavam como peles ou manchas que escondiam o todo para revelar detalhes de desenhos. Para Tassinari, “tanto nas esculturas como nas pinturas, o desmedido existe em razão do menor, não do maior. São pontos de apoio que lutam contra o desastre total”.12  Essa reflexão fica ainda mais evidente em suas obras site-specific.

 Após os gessos e os espelhos, Carlito começou a criar espaços envoltos em tecidos translúcidos, que, de acordo com Ivo Mesquita, propunham-se a “cobrir, apagar para revelar ou fazer ver”.13 Apagavam e revelavam, provocando miradas distintas para os locais em que eram instalados, alguns incluindo sons. Depois, vieram as lâmpadas fluorescentes, criando linhas luminosas e ofuscamentos visuais, por vezes misturadas aos tecidos e outros elementos, como móveis e quadros de espelhos, outras vezes sozinhas, utilizadas como recurso escultórico. Por fim, chegaram os postes de iluminação, tripés suspensos ou apoiados, que desafiavam a física e a engenharia, intervindo no fluxo de galerias e museus. Tudo junto e, ao mesmo tempo, separado; uma amálgama de elementos díspares que se encontravam por meio do gesto do artista, tornando o diálogo quase eterno, assim como sua obra, assim como ele.

1 Herkenhoff, Paulo. Já estava assim quando cheguei em Nice to meet you: Carlito Carvalhosa. São Paulo:

Cosac Naify, 2011.

2 Tassinari, Alberto. Ceras Perdidas em Carlito

Carvalhosa. São Paulo: Cosac Naify, 2000.

3 Mammi, Lorenzo. Carlito Carvalhosa. São Paulo:

Cosac Naify, 2000.

4 Paz, Octavio. Marcel Duchamp ou o castelo de pureza. São Paulo: Editora Perspectiva, 1990.

5 CASA 7. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 222. Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org. br/grupo434O27/casa-7. Acesso em: 3 maio de 2022. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-O6O-7

6 Mammi, Lorenzo. Carlito Carvalhosa. São Paulo: Cosac Naify, 2000.

7 Naves, Rodrigo. Óleo sobre Água em Carlito Carvalhosa. São Paulo: Cosac Naify, 2000

8 Ibid.

9 Venancio Filho, Paulo. Espelhos Graxos em Nice to meet you: Carlito Carvalhosa. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

10 Ibid.
11 Mammi, Lorenzo. Carlito Carvalhosa. São Paulo: Cosac Naify, 2000. 

12 Tassinari, Alberto. Ceras Perdidas em Carlito Carvalhosa. São Paulo: Cosac & Naify, 2000.

13 Mesquita, Ivo. A soma dos dias em Nice to meet you: Carlito Carvalhosa. São Paulo: Cosac & Naify, 2011

Luis Pérez-Oramas

Carlito Carvalhosa (1961-2021) viveu grande parte de sua vida no Rio de Janeiro, onde pode abraçar o legado radical dos artistas brasileiros que o precederam. Carvalhosa soube trazer essas conquistas a um novo patamar, sem precedentes conceituais, formais e de escala.

A teoria do não-objeto neoconcreta, as bases fundamentais para uma definição do ‘parangolé’ de Oiticica, a fantasmática do corpo de Clark, e o corpobra de Antonio Manuel tornaram-se marcos da inovação do fenômeno estético, conduzindo à experiências de esgotamento histórico e formal da arte, com implicações que antecipam manifestações atuais estabelecidas pela Estética Relacional e a Arte Performativa Pós- subjetiva. A radicalidade de algumas dessas proposições adquiriu enorme peso para as gerações seguintes, traduzindo-se muitas vezes como a única conclusão possível para a prática artística. Como exemplo, podemos tomar as obras tardias de Hélio Oiticica ou Lygia Clark que em seu caráter efêmero e antimonumental, claramente fundaram territórios que transcendem as molduras convencionais da arte, em direção ao campo ampliado do além-arte: da terapia ou da prática social, do quasi-cinema e da anti- arte.

A totalidade do repertório constituído pela obra de Carlito Carvalhosa responde a este desafio histórico, desde a sua iniciação como pintor imerso nas profundezas dos recursos informais, até suas impressionantes instalações com tecido, néon, madeira, cera, espelhos e som. Entre as inúmeras possibilidades ofertadas por esses materiais, Carvalhosa abordou a qualidade escultórica de drapeados e vincos, a pintura como volume e massa, e mesmo a presença do som como elemento de densidade e opacidade em instalações icônicas. A obra de Carvalhosa destaca-se pela consistente compreensão que nos oferece da dimensão criadora da matéria e da materialidade nas artes visuais. Para o artista, matéria é imagem e as imagens sempre emergem do campo da materialidade como forças que se expandem através da opacidade e da transparência, da refletividade e da cegueira, como marcas na densidade do real que é preciso vivenciar, vez ou outra, como coisas que já existiam antes de nós.